A partir do início da década de 1960, verificou-se um rápido crescimento das atividades no campo da informática. Entretanto, a quantidade de profissionais que trabalhavam na área não era suficiente para acompanhar as necessidades do mercado, e havia um grande esforço das Universidades no sentido de satisfazer aquela demanda.
Face à pouca regulamentação do setor, os esforços eram desconexos. Cada Universidade tratava o problema da forma que julgava mais conveniente, de modo que passaram a atuar no mercado, na área de computação, profissionais com a mais diversa formação.
Nos Estados Unidos, onde a preocupação com o desenvolvimento da informática aconteceu muito antes que no Brasil, o IEEE - The Institute of Electrical and Eletronic Engeneers - sentiu a necessidade de dotar a área de alguma padronização. Em 1977, foi feito um estudo que resultou em uma proposta de currículo mínimo para um curso de Engenharia na área da Computação. Tal estudo sofreu atualizações in 1981 e 1983, tendo esta última versão (IEEE83) servido como um dos subsídios para este trabalho.
No Brasil, um primeiro esforço de padronização no ensino de informática no contexto de engenharia surgiu no relatório de uma comissão de informática instituída no âmbito do CREA-RJ (CRE87). Os membros desta comissão \"estudaram detalhadamente os programas de Engenharia de Computação sugeridos por entidades internacionais como o IEEE e a Association for Computing Machinery - ACM, e compararam com a formação pretendida no Brasil em cursos de Engenharia Elétrica com disciplinas voltadas para a área de computadores, bem como os vários cursos de informática que preparam analistas de sistemas\". O resultado a que se chegou foi que \"nenhum dos programas analisados prepara um engenheiro capaz de projetar, desenvolver e apoiar a fabricação de equipamentos de informática\".
Assim, chegando a uma conclusão similar àquela do relatório IEEE, a comissão do CREA-RJ achou por bem recomendar ao Conselho Federal de Educação (CFE) \"a criação de uma nova área de Engenharia, não incluída em nenhuma das 6 (seis) áreas já existentes, definidas pela Resolução 48 do CFE, que será a área de Engenharia de Computação\". Antes mesmo de uma resposta formal do CFE a esta recomendação, algumas instituições de ensino superior tomaram a iniciativa de implantar cursos de Engenharia de Computação, como foi o caso da UNICAMP, ITA, PUC-RJ, IME e as Universidades Federais de Uberlândia (UFU) e do Espírito Santo (UFES).
Na UFRN, até 1985 o ensino na área de informática limitava-se às disciplinas de introdução ao processamento de dados, programação e cálculo numérico, ministradas por professores do Departamento de Matemática Pura e Aplicada (DMPA), e às disciplinas em eletrônica digital oferecidas pelo Departamento de Engenharia Elétrica (DEE). Naquele ano, foram criados o Departamento de Informática e Matemática Aplicada (DIMAP) e o curso de Especialização em Engenharia de Sistemas, no Centro de Ciências Exatas (CCE), com ênfase em Pesquisa Operacional e em Análise de Sistemas Computacionais. Em 1986 foi criado o curso de Ciência da Computação, modalidade Aplicações Administrativas (CON86), e em 1987 foi implantada, no âmbito do mestrado em Engenharia Elétrica do Centro de Tecnologia (CT), a área de concentração em Engenharia de Computação e Automação.
Constatada a existência de esforços isolados no ensino de informática, resolveu-se constituir uma comissão mista CCE/CT para estudar e apresentar uma proposta de trabalho conjunto. O relatório final da comissão (REL91) sugeriu a implantação do curso de Engenharia de Computação com duas ênfases: uma em Sistemas de Computação, mais voltada para aspectos formais da Ciência da Computação e que substituiria o curso de Ciência da Computação já existente, e outra em Sistemas e Processos Industriais, que daria enfoque a aplicações industriais da Computação, tais como Automação e Informática Industrial e Controle de Processos.
O referido relatório foi discutido pelo DIMAP que achou a denominação de engenheiro não-apropriada para o perfil do seu profissional. Optou-se então por uma solução intermediária: manter o curso de Ciência da Computação, fazendo as alterações curriculares necessárias, e criar no Centro de Tecnologia o curso de Engenharia de Computação, estruturado em torno da ênfase anterior em Sistemas e Processos Industriais.
Apresenta-se aqui a fundamentação para a proposta de criação do curso de Engenharia de Computação naquele contexto.
A proposta aqui apresentada se fundamentou nos seguintes aspectos:
Se a primeira revolução industrial foi baseada nas máquinas, engenhos e na sua operação, estava em curso uma nova revolução baseada nos sistemas e na cibernética graças à evolução tecnológica alcançada, a nível mundial, nos campos da microeletrônica e dos sistemas informatizados, conjuntamente com outros setores, tais como biotecnologia, mecânica fina, novos materiais, etc. Como resultado, houve a modernização do parque industrial e a sua adequação à produção de bens de melhor qualidade, a um custo menor.
No contexto internacional, eram observados os primeiros sinais de uma nova distribuição das atividades economicamente produtivas. Alguns países aprimoravam cada vez mais as técnicas de produção de produtos intensivos in tecnologia, deixando para outros países a tarefa de produzir aqueles produtos intensivos em energia ou resultantes de processos associados à poluição ambiental.
A nível nacional, desde a década de 1980 observava-se nos meios industriais e nas universidades a importância estratégica de uma maior capacitação tecnológica do país nessas áreas.
Devido ao próprio modelo de desenvolvimento adotado no país, notava-se uma considerável disparidade no perfil econômico nacional, onde regiões com elevada competitividade industrial conviviam com outras cuja atividade industrial ainda era incipiente. O Rio Grande do Norte faz parte de uma região que se enquadrava no segundo perfil, mas mesmo assim era dotado de um grande potencial para atividades relacionadas com inovações tecnológicas.
Esse potencial era facilmente identificado quando se observava, por exemplo, o setor primário, onde se destacava o projeto de agricultura irrigada no vale do Açu. No setor secundário, havia a indústria extrativa mineral da região do Seridó, as industrias têxteis e de tecelagem/fiação da Grande Natal, a possibilidade de instalação de industrias químicas para aproveitamento das águas-mães no parque salineiro bem como a fábrica de barrilha. O Estado contava ainda com o 2º polo produtor de petróleo do país.
Um avanço nas atividades de pesquisa, ensino e extensão em informática e automação industrial era, portanto, não apenas desejado, mas até mesmo cobrado. Restava discutir quem conduziria estes avanços: um curso de pós-graduação? o curso de graduação em Ciência da Computação? ou um curso de graduação em Engenharia da Computação?
O curso de Engenharia de Computação se propunha a cobrir uma lacuna existente, formando profissionais com perfil industrial e com a formação básica necessária para prosseguir estudos mais avançados a nível de pós-graduação.
À criação do curso de Engenharia de Computação justificou-se portanto como mais uma contribuição ao processo de capacitação e inovação tecnológica que se fazia necessário naquele instante em todo o país. É importante salientar que tal atitude foi pioneira no contexto regional Norte-Nordeste e contribuiu para consolidar uma posição de destaque do Estado e da UFRN na área.
Fonte: Processo de criação do curso de Engenharia de Computação
Agosto de 1991
“A UFRN não tinha, antes do DCA (antes do LECA), nenhum curso de engenharia da computação; somente havia o Curso de Ciências da Computação, que pertencia ao Centro de Ciências Exatas e não ao Centro de Tecnologia – ao qual se vinculou o DCA, por ser curso profissionalizante na área de engenharia, diferenciando-se do curso de Ciências da Computação, que era do nível de bacharelado (enfoque em software) e não de engenheiro (enfoque em hardware).”
“Como participante do grupo fundador do antigo LECA, foi nesses 30 dias de gestão que uma reunião realizada definiu o nome do Departamento (DCA). Os laboratórios do DCA, no momento de sua criação, estavam em franco crescimento devido à demanda nacional pela vanguarda da tecnologia na área informática, que depois se tornaria a atual TI.”
Depoimentos do prof. Joaz Santana Praxedes, engenheiro eletricista, mestre em engenharia elétrica, ex-professor do Departamento de Física Teórica (UFRN), e ex-professor do Departamento de Engenharia Elétrica (UFRN).
A história do LECA/DCA inicia-se em 1988, quando a ênfase em Engenharia de Computação foi pensada como uma das ênfases do curso de Engenharia Elétrica. Na época, eram 3 ênfases (eletrônica, eletrotécnica e telecomunicações) e eng. de computação seria a quarta. Naquele tempo, havia o curso de eng. comp. no IME (Instituto Militar de Engenharia) e na UNICAMP (Universidade de Campinas), todos iniciando. Vigorava a Lei da Reserva de Mercado para Informática.
“Fomos, eu e Jackson (cito abaixo) a uma reunião no IME-RJ como coordenadores do 5o. Simpósio Brasileiro de Inteligência Artificial que foi realizado em Natal em 1988. Ouvimos o nome Engenharia de Computação pela primeira vez. O DEE-UFRN foi escolhido como sede MG, do 5o SBIA após eu, participando do 4o. SBIA, em Uberlandia MG ter obtido o apoio do Prof. Ivonildo (diretor do CT) para trazer o SBIA para Natal”.
“A iniciativa da criação do Curso (e não mais de uma ênfase) e do Depto. de Engenharia de Computação (o termo Automação foi sugerido por Ivonildo) agregou muitos professores ao longo do caminho. Joaz foi o primeiro chefe por ter a matrícula mais antiga”.
Depoimento do prof. Paulo Motta